segunda-feira, 4 de junho de 2012





Memória dos porcos

Regresso dos Cariris e encontro sobre a mesa o último livro de Ronaldo Costa Fernandes, memória dos porcos (7Letras. Rio de Janeiro) . Acompanho de perto a produção desse poeta, na minha compreensão um dos melhores do país. Não fosse a tirania das grandes mídias e o recolhimento dos que escrevem pelo religioso prazer da escrita, ele seria bem mais conhecido. Mas a boa poesia é como erva daninha, teimosa em brotar de novo, mesmo quando submetida à fúria dos herbicidas.

Varal dos sonhos

Ronaldo Costa Fernandes

Depois da chuvarada,
os passarinho vieram quarar as asas
no varal do fio de alta tensão.
Ali ficaram pendurados
como roupas de asas,
sob o sol morno da vida.

Os morcegos, ao contrário,
se penduram no trapézio
do forro e dormem invertidos
como minha alma ao forro do dia.

À noite, acordados,
vêm voar nas vigas dos meus pesadelos
e transformar o que é forro
em fio de alta tensão.

sábado, 5 de maio de 2012


Transcrevemos a opinião do escritor, poeta e crítico do Rio Grande do Sul, Romar Beling, a propósito do novo livro de Majela Colares, Memória líquida:



Romar Beling

O final de abril foi marcado pela chegada às livrarias do mais recente livro de poemas do cearense Majela Collares (foto abaixo), de quem já se tratou em mais de uma ocasião no acervo do Leituras de Mundo. Memória líquida foi lançado em São Paulo no dia 25, com a presença do autor, sob o selo da Editora Confraria do Vento, do Rio, e agora passa a circular em todo o País e a estar disponível ao olhar dos leitores.
Natural de Limoeiro do Norte, terra que também já apresentou o poeta Luciano Maia, o cantor do Jaguaribe, à literatura brasileira, Majela é suficientemente reconhecido junto a críticos e leitores de larga envergadura. Para ter-se uma ideia, Kurt Meyer-Clason, o respeitado tradutor que versou Grande sertão: veredas para a língua de Goethe, assinou igualmente uma coletânea de poemas de Majela traduzidos para o alemão, o volume O silêncio no aquário / Die Stille im Aquárium. Nascido em 1964, Majela está desde 1992 radicado no Recife, onde forma, ao lado de, dentre outros, Everardo Norões, ilustre filho do Crato, e de Ronaldo Correia de Brito, este de Saboeiro, um respeitável grupo de escritores e intelectuais cearenses e nordestinos. É de lá que vem, e cada vez mais virá, a autêntica renovação formidável da literatura brasileira, com um acento universal indiscutível, apoiado sobre o local e o coloquial, o pitoresco e o cotidiano, do sertão acariciado pelas brisas do litoral.
No caso específico de Majela, ensaístas de renome, como Marco Lucchesi, Hildeberto Barbosa Filho, Ivan Junqueira, Fernando Py, Ana Miranda, Alexei Bueno, André Seffrin, Francisco Carvalho, Fábio Lucas, o próprio Everardo Norões, Dimas Macedo, Curt Meyer-Clason, dentre outros, já se ocuparam de sua poesia. A esse conjunto de apreciações agora tende a ser agregado o impacto imagético e de conteúdo de Memória líquida (da linda capa acima), título que, aliás, tão oportuna e vitalmente remete ao conjunto temático de seu conterrâneo Luciano Maia, cujo Jaguaribe, memória das águas é digno de ser posicionado em todas as bibliografias.
Na orelha desse novo livro, Ana Miranda, por sinal, menciona: “Ler Memória líquida é uma experiência de beber as palavras na sua pureza mais cristalina. (...) Memórias que constatam a dolorosa consciência e, acima de tudo, a ameaçadora presença humana neste astro impreciso... Memórias que são também balidos e ritmos perfeitos, cantadas na voz de um poeta elevado...”. É Majela Collares firmando seu nome em nosso imaginário.

Postado por Romar Rudolfo Beling - romarbeling@yahoo.com.br
http://www.gaz.com.br/blogs/leiturasdemundo/posts/11677-memoria_liquida.html

sábado, 21 de abril de 2012

Ao vencedor, as batatas

1948.  A um dos livros mais conhecidos de Pernambuco, O tempo dos flamengos, do escritor e historiador José Antonio Gonçalves, é recusado o prêmio Othon Bezerra de Melo. A Academia Pernambucana de Letras – a quem cabia a escolha – prefere eleger a coletânea de versos de Oscar Brandão, um dos seus. Mauro Mota rebela-se. Publica no Diario, no dia 22 de agosto, a crônica Ao vencedor, as batatas. Um livro de “sonetos e cantatas de aceitação apenas doméstica”, escreve, suplanta um ensaio histórico que se tornaria clássico da historiografia brasileira. Mauro Mota esbraveja. Escreve que a literatura “nada tem a ver com as loas vergonhosamente conduzidas aos cornos da lua e que nada mais valem do que algumas moedas de dez tostões fabricadas em Tejipió”. A crônica consta do livro O suplemento e Mauro Mota, organizado pelo jornalista Jodeval Duarte, editado pela Comunigraf, em 2001, ano em que o poeta faria 90 anos.

Obs. Ilustração pintura de Botero

domingo, 25 de março de 2012


Cristo dentro do Tribunal de Justiça



Numa das salas de julgamento do Tribunal de Justiça de Pernambuco, cujo edifício nestes dias completa 180 anos de construção, um enorme crucifixo pende da parede. Acima dele há uma estátua da Justiça, cega, espada na mão. Nossa Constituição prega a igualdade de direitos, entre eles o de crença. E como no país não há apenas católicos, mas também muçulmanos, protestantes, judeus e pessoas de tantas outras religiões, aquela cena parece bem pouco católica.
Há de se pensar como se sente um brasileiro que professa a doutrina do Islã, quando, num órgão público, é confrontado a manifestações de uma fé que não é a sua. Ou um rabino, que por alguma razão seja levado a visitar recinto como aquele do Tribunal. Seria mais confortável se a estátua da Justiça estivesse sozinha naquela sala, com a venda nos olhos e a espada na mão, lembrando a via da imparcialidade de Salomão.
Quanto ao Cristo, para ser lembrado por aqueles que acreditam no Deus feito homem, não precisaria estar ali reproduzido em estátua. Bastaria que dentro de cada um Ele assumisse a dimensão daquele Menino Deus do poema de Fernando Pessoa, mais precisamente de seu heterônimo, Alberto Caeiro, que conta um sonho em que Jesus Cristo desce à terra tornado menino, deixando no céu um Cristo eternamente na cruz. O Poeta diz que aquela criança lhe ensinara a  atirar pedras, a roubar frutos e a ver flores. Uma criança “tão humana que é divina”, com a qual goza o segredo comum que é “o de saber por toda a parte que não há mistério no mundo e que tudo vale a pena”.
Essa Criança Nova do Poeta não carece de imagem, mesmo porque algumas representações acabam por lembrar um catolicismo de outros tempos, que deitou raízes num passado colonial de visitadores do Santo Ofício, iluminado pelas fogueiras da Inquisição, nas quais eram queimados judeus, muçulmanos e todos aqueles que não concordavam com o pensar oficial do Império português. Um catolicismo que, infelizmente, acabou entrando República adentro para se identificar com o lado mais conservador de nossa ‘elite’ nacional.
A manutenção daquela estátua no Tribunal certamente foi um ‘esquecimento’ de alguém que não observou a mudança na Constituição, nem atentou para brasileiros de outros credos. Da mesma forma que, ao lado de nossa Rua do Imperador encontra-se a Praça da República. Porque nossa memória cidadã está sempre a sofrer de arteriosclerose.
Na França, onde a república custou tanto sangue para ser instaurada, não se ouve falar de rua ou avenida com o nome de Luís XVI...

(Essa matéria é parte de um artigo publicado na Gazeta Mercantil, em 20.08.2002. Recentemente, mais de dez anos depois dessa publicação, o Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul aboliu a exposição de imagens de caráter religioso nas suas dependências).
Obs. A ilustração é o Cristo de Grunewald.

sexta-feira, 23 de março de 2012



wb na política

que partido
lhe franquearia a ficha de inscrição
nunca seria o anão enfurnado
na jaula dos espelhos
a manipular no jogo de xadrez
a alquimia da trapaça
a imagem autêntica do passado
é um raio, diz,
e a verdade imóvel não traduz
a matéria da história
daí o quarto de uma só janela
os dias corroídos pelo sal de ibiza
a fuga pelas escarpas dos pirineus 
a tempestade a afugentar os anjos
e a lançar seus escombros
sobre a caligrafia do último justo

quinta-feira, 8 de março de 2012




A tatuagem escreve e circunscreve o corpo. Esconde e, ao mesmo tempo, desnuda. Escorpião ou colibri, estrela ou dragão a cuspir chamas, os traços investem em colorido sobre a epiderme, delimitam um território. O desejo de anunciar o diferente anula-se na reprodução de signos que nada mais dizem.  O gesto que tem por desejo reduzir o anônimo, anuncia o banal. A reprodução técnica carimba o coletivo e o transforma em gado. O corpo, em vez de praça para expressão de alguma estética ou símbolo, metamorfoseia-se em fetiche, tal o código de barras da mercadoria na vitrine.
O olho perdeu o hábito da paisagem, foi rendido aos sinais. A velocidade da vida não permite que ele transgrida, demore-se, alongue o horizonte que deixa vislumbrar o mistério. Rapidez e clareza são as características das marcas feitas para anunciarem perfumes, automóveis, partidos políticos, gente. A massificação da moda após a disseminação do prêt-à-porter relegou a originalidade aos desfiles de modas apresentadas na televisão por modelos andróginos, onde há mais de baile de fantasia do que protótipos de vestimentas: roupas mostram-se, mas não vestem.
Diluído na multidão, sem nada que o diferencie da onda humana que cada dia mais toma conta dos espaços públicos, vestida com camisetas berrantes repletas de frases em inglês, ou com marcas que sugerem algum luxo, resta ao indivíduo recorrer ao tatoo. E, assim, fazer o contrário da tradição indígena que tinha no corpo – a exemplo dos cadiuéus – o lastro anunciador de uma estética cujos significados transcendiam o vulgar.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012


Quase todos os dias passo pela praça que tem o nome do poeta Faria Neves (1872 -1927). É dele o poema O rio. Pela temática, pode nos lembrar Heráclito ou o Pont Mirabeau, de Apollinaire. A praça foi projetada por Burle Marx, na década de 30, período importante da arquitetura modernista no Recife, que contou, além dele, Burle Marx, com nomes como Mário Nunes e Joaquim Cardozo

 O RIO

 Faria Neves

É sempre o mesmo leito pedregoso
e, sobre o mesmo leito, o mesmo rio,
a soluçar queixoso
o mesmo murmúrio...

Tão só, no eterno marulhar das mágoas,
não são mesmas as águas...

E eu penso em mim, nas ilusões fanadas,
sempre desfeitas, sempre renovadas...

E comparo-me ao rio, tristemente...
E comparo-as às águas da corrente.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012



wb na universidade

ninguém na universidade
dar-lhe-ia abrigo
o curriculum
não lhe abriria o portão
nenhuma chave se moveria
ao que busca escancarar
a cela do futuro
ali penetrará
quem dominar ofícios
graduar pontuações
estilhaços do cristal da vida
aludiriam ao haxixe às 7 da noite
num pequeno quarto
no centro de Marselha
pensamentos suspensos em brinquedos
os choques das multidões
lidos como formas preponderantes das sensações
e a denúncia de bienais exposições
louvores à mercadoria fetiche
perguntariam com que passaporte
preencheria o questionário
de algum departamento
o código para desmontar
a astronomia dos livros
lançados pelos bulevares de Paris
que reitor se sublevaria
contra os anátemas de frankfurt
sem guerra ou o trovejar
de trombetas messiânicas
nenhum narrador
desfolharia sua história
mesmo se encontrasse no caminho
um monte de pedras de um cemitério
na fronteira de espanha
ou o anjo de paul klee
a anunciar a ventania do progresso
(ilustrações: Paul Klee + Paulo Carvalho, capa Suplemento Cepe)

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012


A carta de Flaubert

À Mademoiselle Leroyer de Chantepie.
[Croisset, 4 septembre 1858.]

Vous devez me trouver bien oublieux, chère Demoiselle. Excusez-moi, je travaille en ce moment-ci énormément. Je me couche tous les soirs exténué comme un manoeuvre qui a cassé du caillou sur les grandes routes. Voilà trois mois que je n’ai bougé de mon fauteuil que pour me plonger dans la Seine, quand il faisait chaud. Et le résultat de tout cela consiste en un chapitre ! Pas plus ! Encore n’est-il pas fini. J’en ai encore au moins une dizaine à faire, je ne sais rien du dehors et ne lis rien d’étranger à mon travail. Il est même probable que je n’irai guère à Paris cet hiver. Je laisserai ma mère y aller seule. Il faudra pourtant que je m’absente au mois de novembre une quinzaine de jours, à cause des répétitions d’Hélène Peyron, un nouveau drame de mon ami Bouilhet, qui sera joué à l’Odéon. À propos de mes amis, avez-vous lu Fanny, par E Feydeau ? Je serais curieux de savoir ce que vous en pensez.
Maintenant que j’ai parlé de moi, parlons de vous.
Vous m’avez envoyé une bien belle lettre la dernière fois. L’histoire de Mlle Agathe m’a navré ! Pauvre âme ! Comme elle a dû souffrir ! Vous devriez écrire cela, vous qui cherchez des sujets de travail. Vous verriez quel soulagement se ferait en votre coeur, si vous tâchiez de peindre celui des autres.
Le conte que j’ai reçu de vous au mois d’avril n’a pas été remis à la Presse, parce qu’il m’est arrivé la veille ou l’avant-veille de mon départ. Il est resté à Paris dans mon tiroir ; je sais d’ailleurs qu’on le refuserait à cause du sujet, qui ne convient pas aux exigences du journal. J’essayerai, cependant. Pourquoi ne travaillez-vous pas davantage ? Le seul moyen de supporter l’existence, c’est de s’étourdir dans la littérature comme dans une orgie perpétuelle. Le vin de l’Art cause une longue ivresse et il est inépuisable. C’est de penser à soi qui rend malheureux.
J’ai été bien impressionné par le massacre de Djedda et je le suis encore par tout ce qui passe en Orient. Cela me paraît extrêmement grave. C’est le commencement de la guerre religieuse. Car il faut que cette question se vide ; on la passe sous silence et au fond c’est la seule dont on se soucie. La philosophie ne peut pas continuer à se taire ou à faire des périphases. Tout cela se videra par l’épée, vous verrez.
Il me semble que les gouvernements sont idiots en cette matière. On va envoyer contre les musulmans des soldats et du canon. C’est un Voltaire qu’il leur faudrait ! Et l’on criera de plus belle au fanatisme ! à qui la faute ? Et puis, tout doucement, la lutte va venir en Europe. Dans cent ans d’ici, elle ne contiendra plus que deux peuples, les catholiques d’un côté et les philosophes de l’autre.
Vous êtes comme elle, vous, comme l’Europe, – déchirée par deux principes contradictoires, et c’est pour cela que vous êtes malade.




Em todo curso de literatura deveria ser obrigatória a leitura de um dos mais instigantes ensaios literários: A orgia perpétua, de Mario Vargas Llosa. O título é tirado de uma frase de Gustave Flaubert, que serve de epígrafe ao livro (“O único meio de suportar a existência  é de se aturdir  na literatura, como numa orgia perpétua”) e consta de uma correspondência dirigida a Mlle. Leroyer de Chantepie, dois anos depois de Madame Bovary ter sido publicado pela primeira vez, em La Revue de Paris.
La orgia perpetua começa com um capítulo intitulado Uma paixão não correspondida, no qual Vargas Llosa descreve como brotou, e nunca cessou de crescer, sua admiração pelo escritor francês, tido como o pai do romance moderno.  Em seguida, sob a forma de uma espécie de entrevista a si mesmo, responde às questões que procuram explicar o surgimento da ideia do Madame Bovary e todos os mecanismos utilizados na sua realização. Vem depois a análise crítica de Vargas Llosa, descrição dos mecanismos literários utilizados por Flaubert, muitos dos quais o escritor peruano iria se valer em romances como seu último O sonho do Celta.